Inspiração também pode ser um problema
Geralmente, pessoas que escrevem começam a jornada para falar tudo que têm a dizer e há muito o que dizer. Nesse sentido, a inspiração acaba sendo um problema quando há muito e cada vez mais, muitas inspirações sem um objetivo claro. Mais um problema: é possível oferecer as ferramentas, mas não há nada mais pessoal que a escrita e não há uma resposta única.
Enfim, muito, também = nada.
É importante ter fontes de inspiração sem se prender a elas.
Um bom primeiro passo é: quais inspirações são realmente úteis para o meu objetivo... qual é o meu currículo? Na hora da escrita, o que vale é como eu sei falar do que quero e não como falam por aí.
Unindo todo o nosso gosto, é possível encontrar uma teia complexa que forma toda uma identidade, quase um personagem, então, o que essa persona realmente quer? É sempre mais fácil definir algo de fora para fora do que de dentro.
É estressante como, mesmo estando tudo tão certinho dentro de uma ideia tão específica, a gente ainda é capaz de se perder e isso leva a dois caminhos: escrita automatizada e insatisfatória ou nenhuma escrita.
A verdade é: o que vale é escrever. Não importa se parece com x ou y, se não parece um texto bom. Quais são esses parâmetros? Tudo pode ser lido se tiver uma essência humana singular por trás, não importa se a forma não é a melhor. O Parnasianismo já acabou.
Vamos pensar em uma sopa de letrinhas. Aleatório, sem padrão. Escrever sem nem pensar. Depois, busca um padrão. O que mais aparece ali é um guia, não uma conclusão. Quem somos ao comer a sopa e o que realmente queremos comer?
É comum ter a mentalidade de que tudo deve estar 100% palatável para todos e que somos obrigados a comer de tudo, mas uma pessoas não forma a própria voz a partir de forçar em si uma voz que funciona apenas para outros. Escrita não é sobre falsidade, mas ela precisa de um escritor que sabe seu diferencial. Mesmo em textos inspirados em outros, sabemos o limite entre um e outro.
Um texto não é apenas um texto, ele é uma prova de quem o escreveu, é uma estadia da voz no mundo. Se qualquer um pode escrever o que eu escrevo, por que eu escrevo? Não é sobre saber quem eu sou no mundo, mas sobre fazer o leitor saber a quem a voz pertence ao ler.
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Ler e escrever não são sobre estética. São formas de identidade.
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